Não sou dos maiores fãs dos filmes de Clint Eastwood, mas tenho de concordar com o crítico Inácio Araújo quando ele diz que “Grand Torino” é, em última análise, “Grand Clint”. Penso que, para podermos apreciar verdadeiramente este filme, é preciso dissociar o rabugento veterano de guerra Walt Kowalski de personagens como Dirty Harry e William Munny (de “Os Imperdoáveis). É claro que a tentação é grande; é evidente que Walt carrega coisas desses personagens e de outros, assim como coisas do próprio Clint. Mas tentemos analisá-lo pelo que é: um solitário, desiludido, ranzinza aposentado, com amarguras e decepções. Odiadores de metáforas que me perdoem, mas Walt representa os EUA em pessoa, simbolizando um passado que não existe mais. Sobretudo quando consideramos que ele trabalhava em uma grande montadora (que hoje está em dificuldades), mora em um decadente subúrbio de Detroit e tem de conviver com imigrantes.
Eastwood faz bonito ao representar e dirigir neste filme. Pode-se dizer, com certa razão, que seu Walt é um pouco caricato, resmungando a tudo e todos, mas isso não tira seu valor simbólico. Incapaz de se relacionar com seus filhos ou netos, viúvo, Kowalski é uma espécie de avô que ninguém gostaria de ter, solitário, taciturno e portador de língua ferina. É aí que vai se encaixar Thao, filho dos imigrantes que se tornaram seus vizinhos, ao estabelecer com ele uma relação de amizade que vai, aos poucos, trazê-lo novamente ao convívio social.
O Gran Torino do título é um carro antigo que pertence a Walt e que é bastante visado por uma gangue local. Kowalski cuida do carro como se nada mais houvesse em sua vida, ao ponto do veículo se tornar uma extensão dele próprio. O carro também acaba por ditar o modo como ele reage ao mundo e aos outros: ameaça Thao quando este tenta roubar o veículo, empresta-o ao menino quando ganha sua confiança, etc.
Clint já declarou que atualmente sente mais satisfação em dirigir do que atuar; de qualquer maneira, a mim é sempre interessante vê-lo tanto atrás quanto à frente das câmeras.
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