quinta-feira, 30 de junho de 2011
Thor
Thor (Kenneth Branagh, 2011)
Arthur Souza Lobo Guzzo*
Cartaz nacional do filme "Thor"
Não é difícil perceber que nunca antes na história de Hollywood se bebeu tanto na fonte das histórias em quadrinhos como nos últimos anos. Há quem diga que isto é um grave sintoma de que a criatividade e a capacidade de inovar dos estúdios norte-americanos estão à míngua, e que se torna cada vez mais difícil entregar “novidades” ao espectador no grande cinema dos blockbusters, sendo os grandes heróis da Marvel e da DC Comics uma tênue esperança – que, aliás, já começa a minguar também. Pode ser. Entretanto, a verdade é que bons exemplares de filmes inspirados em quadrinhos não são raros. E o interesse do público nesse tipo de filme não é fraco, nem de longe. Thor, de Kenneth Branagh, é a nova jóia na coroa dos filmes da Marvel, que, goste ou não, iniciou um ambicioso projeto de levar seus personagens à tela grande, e tem feito isto com grande entusiasmo e cuidado, gerando resultados no mínimo interessantes. Ora, quem é que vai dizer que não é interessante acompanhar um filme que tem Robert Downey Jr., com boa dose de sarcasmo e humor ácido, vivendo um super-herói meio obscuro como o Homem de Ferro? Na mesma medida, assistir a um filme dessa categoria dirigido por alguém como Kenneth Branagh pode ser igualmente promissor.
É claro que, para que seja agradável a ideia de um ator/diretor como Branagh – que dedicou considerável parte de sua carreira às obras de Shakespeare – no comando de uma adaptação de um herói da Marvel, é preciso que se tenha em admiração as obras anteriores desta mesma pessoa. E alguém na Marvel certamente as tem, para sequer considerar essa possibilidade. O fato é que é justamente nesse aspecto, algum peso dramático que tanto falta a tantos outros filmes comerciais atualmente, que a decisão de contratar Branagh para a cadeira de diretor é acertada. Na medida em que o roteiro permite, o diretor de pérolas como Henrique V e Hamlet consegue extrair grandes interpretações do elenco, que tem o consagrado Anthony Hopkins como um dos principais nomes de destaque. Aliás, é um deleite ver Hopkins, que não precisa provar mais nada a absolutamente ninguém, em papéis incomuns como o de Odin, onde o veterano parece se sentir completamente à vontade, e onde cada palavra parece ser, ao mesmo tempo, calculada meticulosamente e pronunciada instintivamente.
Anthony Hopkings, Tom Hiddleston e Chris Hemsworth no filme "Thor"
Igualmente raro e louvável é o trabalho de Tom Hiddleston, ator londrino que já havia colaborado com Branagh no teatro e que é nada menos que assombroso em cena. É bem possível que a dinâmica entre pai e filhos seja o melhor que Thor tem a oferecer, porque a jornada de herói que é apresentada não tem nada de essencialmente novo. O herói que precisa passar por duras provações para se tornar mais digno, forte, e, principalmente, humilde, é um caminho que já foi traçado incontáveis vezes, desde os episódios mitológicos até desenhos animados da Disney. Os asgardianos, pelo menos até onde é possível entender, nem deuses são, e sim seres de outra dimensão, que compartilham emoções e sentimentos bastante humanos. Um deles é conhecido por se entregar aos prazeres da gula, e come vorazmente em uma situação de grande ansiedade e estresse. Impossível querer algo mais humano do que isto. Logo, o que interessa aqui é o embate psicológico a que os filhos de Odin estão sujeitos. Thor e Loki disputam a atenção de Odin desde pequenos, e o filme é correto em demonstrar como isto tem desdobramentos um tanto complexos no aspecto emocional para os dois personagens. Isto é particularmente marcante nas cenas divididas entre Hopkins e Hiddleston. Sabendo disso, Branagh acertou em cheio ao escalar Hinddleston como o perturbado e traiçoeiro Loki, um papel que requer muito mais densidade do que o do mimado e arrogante Thor. Nesse sentido, a participação do australiano Chris Hemsworth como Thor é muito mais prolífica nos momentos de humor, em que sua presença se torna mais relevante.
Cena do Filme "Thor"
No que diz respeito aos aspectos visuais de Thor, algumas escolhas ficam um pouco mais difíceis de serem compreendidas. Um exemplo é a fotografia e o constante uso do chamado “dutch angle” em muitas e muitas cenas. Fica evidente que os realizadores optaram por utilizar esse recurso para homenagear os quadrinhos – que empregam isto fartamente – e para realçar a tensão psicológica, sendo que, pelo que consta, esta última é uma das funções primordiais deste ângulo de câmera em particular. Mas o artifício empregado à exaustão perde seu valor e chega a causar certo incômodo. A paleta de cores, por sua vez, consegue despertar certo interesse, especialmente quando retrata os mundos fantásticos de Asgard e Jotunheim, mas também exagera um pouco na saturação em alguns pontos que poderiam ser mais sombrios.
De todos os personagens da Marvel que já atingiram ou estão para atingir o cinema, Thor talvez não seja o mais instigante ou complexo. Mas, ainda assim, é perfeitamente possível colocá-lo em um panorama onde seus conflitos, decepções e escolhas sejam acompanhadas com atenção e entusiasmo. Kenneth Branagh conseguiu evidenciar essa possibilidade, dentro dos limites que cercariam qualquer produção deste gênero. Pode-se dizer que não dá para exigir muito mais de um filme eminentemente comercial como Thor.
*Arthur Souza Lobo Guzzo é graduado em Comunicação Social pela PUC-Campinas e em Ciências Sociais pela Unicamp.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
Arraste-me para o inferno (Drag me to hell, Sam Raimi, 2009)
Ainda não sei bem o que pensar sobre o filme 'Drag Me To Hell', de Sam Raimi. Talvez minhas expectativas estivessem por demais elevadas quando adentrei a sala de cinema, talvez não. Mas o fato é que, se fiquei satisfeito com algumas cenas que definitivamente funcionam (e muito bem), me desapontei com algumas outras, grotescamente cômicas, por assim dizer. E o estranho é que esse mesmo tipo de humor me levou às gargalhadas em 'Evil Dead' e 'Army of Darkness', mas aqui faz pouco além de quebrar o clima de tensão que é estabelecido tão cuidadosamente nas cenas ditas "boas". Ou seja, o humor de desenho animado acaba por sabotar o terror psicológico, sem uma gota de sangue, que, sabemos, é o melhor de todos.
Vamos começar falando do que funciona. A moça trabalha com empréstimos bancários e hipotecas, nega uma extensão de empréstimo (ou algo parecido, não tenho o menor conhecimento sobre o vernáculo financeiro) a uma cigana para impressionar o chefe e esta joga-lhe uma maldição nas fuças. A moça procura desesperadamente se livrar da mandinga, que vem a ser a pior possível. Um demônio está no seu encalço e vai arrastá-la ao Hades ao prazo de três dias. O primeiro conselheiro espiritual que ela procura é demais. O modo como Raimi nos apresenta ao sujeito, mostrando CD's gravados por ele e outros artefatos estranhos, já é muito bom. A personagem também é muito interessante, pois contrapõe com elegância os argumentos do namorado da moça, que é psicólogo e quer descartar as intervenções do mundo sobrenatural.
Raimi poderia muito bem ter investido mais nessa tensão, nesse "não saber", pois é isso que me impressionou. Afinal, o que essa entidade quer? Por que levar a alma de uma pobre moça que cometeu um erro? É isso que funciona. Não é de se admirar que a melhor cena de todas seja aquela em que um ritual é realizado com o auxílio de uma outra vidente mais graduada (interpretada pela atriz mexicana Adriana Barrazza) para tentar descobrir isso.
Mesmo assim, Raimi não se furta em colocar algumas "gags" para tentar arrancar risos de seu público, e isso acaba com toda a tensão que o filme tenta criar. Sim, eu sei que esse é o estilo dele, e, sim, eu amo Evil Dead. Mas...parece-me que Raimi cede a um tipo de vedetismo que espera certas coisas em qualquer filme que ele faça. E aí fica difícil inovar em qualquer sentido. Por exemplo: em todos os filmes tem aquele mesmo carro, o tal Oldsmobile. Em todos os filmes vemos uma mão saindo de dentro da terra...até mesmo em 'Homem Aranha'. Isso é até divertido; tentar achar essas coisas. Mas qual o sentido de se colocar uma bigorna caindo na cabeça de um cadáver, de modo que os olhos saem das órbitas cobertos de uma gosma nojenta que...vai atingir a heroína em cheio no meio da cara?
Pode ser que eu esteja ficando velho. Eu adorava ver 'Braindead', do Peter Jackson, e rachava o bico com aquelas cenas ridículas feitas a um orçamento mambembe. Mas aqui eu esperava um terror daqueles de gelar a espinha, e não foi o que encontrei. Mas, vá lá: Justin Long faz um ótimo trabalho como o namorado cético, e por isso destoa do resto do elenco ao apresentar um psicólogo contido e normal, reagindo adequadamente a cada cena dantesca. Dileep Rao, no papel do vidente Rham Jas, também é uma grata surpresa. Outro ponto a ser considerado é o modo como os irmãos Raimi nos levam a constatar que o caráter da jovem Christine Brown não é tão incólume como julga seu namorado.
Vamos começar falando do que funciona. A moça trabalha com empréstimos bancários e hipotecas, nega uma extensão de empréstimo (ou algo parecido, não tenho o menor conhecimento sobre o vernáculo financeiro) a uma cigana para impressionar o chefe e esta joga-lhe uma maldição nas fuças. A moça procura desesperadamente se livrar da mandinga, que vem a ser a pior possível. Um demônio está no seu encalço e vai arrastá-la ao Hades ao prazo de três dias. O primeiro conselheiro espiritual que ela procura é demais. O modo como Raimi nos apresenta ao sujeito, mostrando CD's gravados por ele e outros artefatos estranhos, já é muito bom. A personagem também é muito interessante, pois contrapõe com elegância os argumentos do namorado da moça, que é psicólogo e quer descartar as intervenções do mundo sobrenatural.
Raimi poderia muito bem ter investido mais nessa tensão, nesse "não saber", pois é isso que me impressionou. Afinal, o que essa entidade quer? Por que levar a alma de uma pobre moça que cometeu um erro? É isso que funciona. Não é de se admirar que a melhor cena de todas seja aquela em que um ritual é realizado com o auxílio de uma outra vidente mais graduada (interpretada pela atriz mexicana Adriana Barrazza) para tentar descobrir isso.
Mesmo assim, Raimi não se furta em colocar algumas "gags" para tentar arrancar risos de seu público, e isso acaba com toda a tensão que o filme tenta criar. Sim, eu sei que esse é o estilo dele, e, sim, eu amo Evil Dead. Mas...parece-me que Raimi cede a um tipo de vedetismo que espera certas coisas em qualquer filme que ele faça. E aí fica difícil inovar em qualquer sentido. Por exemplo: em todos os filmes tem aquele mesmo carro, o tal Oldsmobile. Em todos os filmes vemos uma mão saindo de dentro da terra...até mesmo em 'Homem Aranha'. Isso é até divertido; tentar achar essas coisas. Mas qual o sentido de se colocar uma bigorna caindo na cabeça de um cadáver, de modo que os olhos saem das órbitas cobertos de uma gosma nojenta que...vai atingir a heroína em cheio no meio da cara?
Pode ser que eu esteja ficando velho. Eu adorava ver 'Braindead', do Peter Jackson, e rachava o bico com aquelas cenas ridículas feitas a um orçamento mambembe. Mas aqui eu esperava um terror daqueles de gelar a espinha, e não foi o que encontrei. Mas, vá lá: Justin Long faz um ótimo trabalho como o namorado cético, e por isso destoa do resto do elenco ao apresentar um psicólogo contido e normal, reagindo adequadamente a cada cena dantesca. Dileep Rao, no papel do vidente Rham Jas, também é uma grata surpresa. Outro ponto a ser considerado é o modo como os irmãos Raimi nos levam a constatar que o caráter da jovem Christine Brown não é tão incólume como julga seu namorado.
sexta-feira, 3 de abril de 2009
Gran Torino (Clint Eastwood, 2009)
Não sou dos maiores fãs dos filmes de Clint Eastwood, mas tenho de concordar com o crítico Inácio Araújo quando ele diz que “Grand Torino” é, em última análise, “Grand Clint”. Penso que, para podermos apreciar verdadeiramente este filme, é preciso dissociar o rabugento veterano de guerra Walt Kowalski de personagens como Dirty Harry e William Munny (de “Os Imperdoáveis). É claro que a tentação é grande; é evidente que Walt carrega coisas desses personagens e de outros, assim como coisas do próprio Clint. Mas tentemos analisá-lo pelo que é: um solitário, desiludido, ranzinza aposentado, com amarguras e decepções. Odiadores de metáforas que me perdoem, mas Walt representa os EUA em pessoa, simbolizando um passado que não existe mais. Sobretudo quando consideramos que ele trabalhava em uma grande montadora (que hoje está em dificuldades), mora em um decadente subúrbio de Detroit e tem de conviver com imigrantes.
Eastwood faz bonito ao representar e dirigir neste filme. Pode-se dizer, com certa razão, que seu Walt é um pouco caricato, resmungando a tudo e todos, mas isso não tira seu valor simbólico. Incapaz de se relacionar com seus filhos ou netos, viúvo, Kowalski é uma espécie de avô que ninguém gostaria de ter, solitário, taciturno e portador de língua ferina. É aí que vai se encaixar Thao, filho dos imigrantes que se tornaram seus vizinhos, ao estabelecer com ele uma relação de amizade que vai, aos poucos, trazê-lo novamente ao convívio social.
O Gran Torino do título é um carro antigo que pertence a Walt e que é bastante visado por uma gangue local. Kowalski cuida do carro como se nada mais houvesse em sua vida, ao ponto do veículo se tornar uma extensão dele próprio. O carro também acaba por ditar o modo como ele reage ao mundo e aos outros: ameaça Thao quando este tenta roubar o veículo, empresta-o ao menino quando ganha sua confiança, etc.
Clint já declarou que atualmente sente mais satisfação em dirigir do que atuar; de qualquer maneira, a mim é sempre interessante vê-lo tanto atrás quanto à frente das câmeras.
domingo, 22 de março de 2009
Watchmen - O Filme (Zack Snyder, 2009)
Ao sair de “Watchmen”, de Zack Snyder, não soube bem o que pensar do filme. Sou um dos fanáticos pela obra seminal de Alan Moore e Dave Gibbons que disseca o conceito de super-herói, e não via a chegada do filme – que passou por vários diretores, desenvolvimentos, projetos, etc. – com bons olhos. “Infilmável” era o que mais se ouvia a respeito desta obra nos últimos 20 e poucos anos, desde que foi lançada e revolucionou o mercado dos quadrinhos. Mas, após outras adaptações bem-sucedidas de obras também “infilmáveis”, dentre as quais se destaca com louvor a trilogia Senhor dos Anéis de Peter Jackson, a esperança de que alguém pudesse fazer algo remotamente decente com o livro foi crescendo. Snyder talvez não fosse o mais indicado, já que muitos torcem o nariz para seu estilo nada sutil, sua estética de gosto duvidoso, seus enquadramentos pouco convencionais (no mau sentido) e sua insistência em criar sequências pouco verossímeis, como aquelas que envolvem o excessivo uso de câmera lenta, que, a meu gosto, são condenáveis. Mas as circunstâncias trouxeram Snyder ao projeto, graças ao seu triunfante (o que não quer dizer necessariamente “bom”) “300”. Após duas visitas ao cinema e alguma ponderação, concluo que o resultado não foi decepcionante. Ao contrário; foi bom.
Snyder não é bobo e soube conter seus cacoetes cinematográficos, na medida do possível, para criar um filme que presta grande homenagem à obra. “Watchmen” consegue, em pouco mais de duas horas e meia, apresentar tudo aquilo que era importante no livro, e mais um pouco. Os EUA sombrios e levemente distópicos estão lá. Richard Nixon, no seu quinto mandato presidencial consecutivo, está lá (alguma semelhaça com Hugo Chávez?). A iminência do holocausto nuclear entre URSS e EUA também marca presença, de forma bastante competente, pelas vozes de âncoras e comentaristas de telejornais. Os heróis, ou aventureiros fantasiados, forçados pelo governo a se aposentarem, são entregues de forma até emocionante por seus intérpretes. O brilho maior fica, é claro, com Jackie Earle Hailey, que dá vida ao vigilante psicopata Rorschach com competência e emoção incontestes. Dr. Manhattan, esse super-herói quântico que é um dos meus personagens favoritos de toda a ficção escrita, ficou ótimo. O Coruja de Patrick Wilson está somente bom; ainda acho que John Cusack teria acertado em cheio neste papel. Aqui é preciso citar o Ozymandias de Matthew Goode e a Espectral de Malin Akerman como os pontos fracos, mas não comprometem o resultado final.
É possível dizer que o resultado é bom por que os temas principais com que lida a HQ estão presentes. Claro que, como bom fã, me recusei a aceitar certas mudanças, como por exemplo a cena desconcertante entre o Coruja, a Espectral e sua mãe, perto do fim. Completamente desnecessário e de péssimo gosto. A grande vantagem do filme é a sua recusa em fazer concessões de qualquer natureza para trazer um deleite visual, principalmente para os fãs. Talvez por isso o filme não seja para todos, e não vá fazer muito sucesso. A violência gráfica, as cenas de sexo e os comentários políticos são despejados sem nenhum filtro. Imagino que Snyder deve ter tido brigas homéricas com os executivos da Warner para colocar cenas como a do Dr. Manhattan explodindo três capangas do vilão Moloch, ou, pior, a de um homem tendo seus dois braços amputados de forma grotesca. Vejo isso como algo bom; seria péssimo se tivéssemos ‘Watchmen 2’ sequer sendo cogitado pelos chefões da indústria cinematográfica.
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
E aí, meu irmão, cadê você? (O brother, where art thou? - Coen Brothers, 2000)
Este é um filme dos irmãos Coen que estava na minha lista há algum tempo. Felizmente, peguei-o começando na TV a cabo outro dia. O resultado foi bastante agradável, embora esteja distante de obras como O Grande Lebowsky e A Roda da Fortuna. Ainda assim, esta maluca adaptação triunfou ao apresentar uma visão livre, inquietante e cômica da Odisséia ambientada no interior dos EUA durante a Grande Depressão, acompanhando as desventuras de três presidiários fugitivos pelo sul americano. Além disso, é sempre agradável ver habituais colaboradores dos Coen como John Goodman e John Turturro em sua melhor forma.
Logo de início, chama a atenção a fotografia bastante dessaturada, puxando para um quase preto-e-branco. Eventualmente, as cores vão aparecendo, mas esse clima inicial favorece uma atmosfera de desolação que certamente atingiu o país naqueles tempos de crise. George Clooney está um tanto quanto careteiro, mas mesmo assim não compromete. Quem se destaca é Tim Blake Nelson, ator pouco conhecido que compõe com perfeição o tímido e mocorongo Delmar. O filme nos apresenta a figuras no mínimo interessantes, como por exemplo o político oportunista Menelaus “Pappy” O’Daniel, que supostamente é inspirado em uma pessoa real, e o seu oponente na disputa pelo governo do Mississippi, Homer Stokes.
No que diz respeito à Odisséia, o filme toma muitas liberdades, que podem mesmo irritar alguns puristas. A mais interessante delas, a meu ver, é o modo como os Coen adaptaram a passagem das sereias, que, no original, é a minha parte favorita. Entretanto, a cena que me pegou foi a que mostra os três condenados cantando a ótima ‘Man of Constant Sorrow’ e obtendo sucesso comercial com isso.